quinta-feira, 17 de julho de 2008

Como surgiu o Homem Traíra*

O nosso camarada Pedro Villa, de uma cidadezinha do interior paulista, enviou uma crônica muito interessante. Ele descobriu um ser mutante, um pelego que parece operário e que acha que de tanto admirar o patrão se bandeou para o lado dele. Abaixo, vamos publicar o texto do Pedro. Mas atenção: qualquer semelhança entre fatos e nomes é mera coincidência.


Há muito, muito tempo, numa fábrica não muito distante, trabalhou o torneiro mecânico Paulo Pereira Feijó, mais conhecido como Dedão. Apelido peculiar, graças ao desproporcional dedo indicador da mão direita. Enquanto um dedo normal mede de 7 a 8 centímetros, o de Paulo tem exatamente 11. E olha que ele é um cara de estatura mediana.

Paulo ou Feijó – como você, ilustre leitor ou leitora quiser chama-lo – com muito custo conseguiu entrar nessa fábrica. Adora contar para os outros operários como foi dura sua vida.

– É, cambada, foi com mucho custo que tô aqui hoje. Já trabalhei de faxineiro, encanador, camelô, chapeiro de padaria, porteiro de motel e, agora, graças ao curso do Senai e um primo que me deu uma forcinha, sou ajudante de produção.

– Ochê! – retruca o Zé – mas quanta coisa mesmo, hein! Tu já fez de tudo moço.

– Labutei até no roçado! Quando menino, trabalhei na roça com meus pais e irmãos.

– Que vida, hein?! – admira-se Carlão.

– Mas não parei não. Ainda vou ser torneiro mecânico. To até estudando pra isso, num sabe. E tenho um primo que trabalha aí no escritório que é amigo dos home e que vai tentar me colocar pra trabalhar com a máquina.

– Já vi que esse cabra é perigoso... – cochicha o Zé com Carlão.

Dedão costumava sempre trabalhar direitinho, sempre correndo pra lá e pra cá. Às vezes, parecia uma barata tonta. A gente desconfiava, inclusive, que ele, na verdade, mais enrolava do que de fato trabalhava. Podem dizer o que quiserem, mas ninguém engana peão, não! Cara que fica na correria, na verdade, quer passar uma imagem de que trabalha demais.

Fora sua correria exagerada e seu puxassaquismo, até que é um cara legal. Nos dias de horas-extras de fim-de-semana, ele trazia bolo de fubá feito por sua gentil esposa. Sabe tudo de futebol e conta piadas engraçadíssimas.

O seu pior defeito é não assumir os erros que comete. O cara se transforma e sai logo acusando quem estiver na frente. Graças a essa habilidade de ser liso igual quiabo e ficar apontando culpados para os erros em vez de assumi-los e por ter um dedo desproporcional, evoluímos seu apelido de Dedão para DDI: Dedo-Duro-Indicador. Ele não gostou não. Mas fazer o quê?

Um dia, se não me engano numa quarta-feira, o Sr. Willian, gerente e dono da empresa, desceu até a fábrica para fazer uma inspeção surpresa. Ele diz que faz isso para ficar mais próximo dos “colaboradores”, e sentir como está a fábrica. Mas a gente sabe que, na verdade, ele vem é pra fiscalizar a peãozada.

Numa dessas visitas, esse lazarento demitiu um rapazinho só porque ele usava piercing e tinha uma tatuagem de uma banda de rock no antebraço. O maldito cismou com a tatuagem de uma caveira segurando uma bandeira do Brasil. O patrão disse que aquilo era uma ofensa à moral e à pátria. O garoto tentou argumentar que aquela imagem era de uma banda de rock. Se não me engano era uma tal de “Airon Maidi”. Depois desse dia, passamos a chama-lo de Patrão Caramulhão. É pesado, mas não conseguimos achar um apelido legal que combinasse com o Sr. Willian.

Pois então, voltando ao assunto. No dia em que o Sr. Willian desceu, ele passou pelo DDI, olhou, perguntou o nome. E com ar de quem já tinha ouvido falar dele, perguntou:

– Você, por acaso, é Paulo Pereira Feijó? Primo do Conrado da engenharia?

– Sim, senhor!

– Pois bem, me diga uma coisa...

– Sim, senhor!

– Gosta de pescar?

– Sim, senhor!

– Então vou te convidar pra uma pescaria esse sábado, numa lagoa perto do meu sítio. Topa?

– Sim, senhor! Ah, mas sábado tenho quer vir fazer hora-extra, já fui escalado no banco de horas.

– Esquece, vou conversar com seu encarregado. Sábado me espere, aqui em frente à fábrica, às 7h30. Passo pra te pegar, ok?

– Sim, senhor!

– Ah, e vou te chamar de Paulinho. Acho mais familiar.

O Caramulhão marcou com ele às 7h30 pra gente não ver os dois no portão da fábrica. A gente entra às 6h pra trabalhar. Mas a gente deu um jeito de espiar pela janela do almoxarifado.

Pois bem, lá estava DDI com suas velhas tralhas de pesca. Lá se foi ele pescar com o patrão.

Chegaram ao sítio do Sr. Willian e foram direto para a lagoa. O patrão não quis dar o gosto ao peão de conhecer a casa. Afinal, cada um no seu lugar.

Pegaram o barco e foram lagoa a dentro. Usando lambaris como isca, a chance de pegar um peixe grande aumenta. A lagoa é grande e bonita. Antes era muito freqüentada pela população da cidade próxima. Mas quando o patrão comprou o terreno do seu sítio, a lagoa passou a ser freqüentada só por ele e por sua família. O lazarento até mandou cercar em volta da lagoa e colocou capangas armados pra tomarem conta. Deixem eu corrigir: sítio é muita modéstia. Na verdade, é uma baita fazenda. O cara cria umas centenas de cabeça de gado. Eita que o dinheiro do nosso trabalho vai tudo aí!

Estavam lá, Patrão Caramulhão e DDI. O peão, tímido e intimidado pela presença do patrão falava muito pouco. Tentava puxar um assunto ou outro, mas o Caramulhão papeava pouco. Esses caras fazem isso para intimidar mesmo. Num papo e outro, o patrão puxa o assunto:

– É Paulinho, bonito esse lugar, não?

– Sim, seu Willian!

– Então fica esperto aí com essa vara, pois aqui dá umas traíras graúdas, viu?

– Fica tranqüilo patrão!

Não deu outra. Depois de mais de 20 minutos sem nenhum beliscão, uma bela de uma traíra fisgou o anzol de Paulo. Foi daquelas de o cara tomar um susto. A traíra era tão grande que quase o derrubou na água. Foi puxa pra lá, puxa pra cá, e o maldito peixe resistia como uma fera. O próprio patrão ficou espantado, pensou nunca ter visto um peixe desse tamanho e força. Até disse que, se fosse em alto mar, arriscaria dizer que era um tubarão. Mas todos sabem como pescador costuma aumentar as histórias, né?

Bem, Paulo foi mais forte e estava conseguindo cansar o peixe para trazer à superfície, perto do barco. Claro que a orientação era dada pelo patrão. Paulo, na verdade, só sabia pescar de varinha de bambu em beira de barranco. Ao falar que sabia pescar para o patrão, ele estava interessado em se aproximar do homem e tentar arrumar uma boquinha melhor na empresa, como torneiro mecânico.

Foi quando depois de uns confusos sete minutos o peixe surgiu na superfície.

– Paulinho, a bicha é brava demais! Pega um saco e coloca ela dentro, até parar de se debater.

– Aé, né? O senhor está certo. Mas a danada não quer sair da água de jeito maneira!

Depois de muito esforço e orientação do patrão, Paulo conseguiu colocar a traíra no saco. O patrão, já todo cheio de inveja por ter sido um peão a pegar aquele belo e grande peixe, já começava a matutar em convencer o pobre funcionário a dar o peixe para ele. Pensava que, afinal de contas, o peixe é da lagoa e a lagoa está em suas terras. Logo...

Este peixe é conhecido por ter gênio arredio e ser mestre na arte da traição. Traição porque ele finge estar morto ou cansado para, no melhor momento, tentar escapar das garras do predador, seja da água, seja um pescador vacilão.

O desejado peixe começava a parar de se debater e se aquietar. Paulo estava orgulhoso. Batia a mão no peito e se gabava por ter pescado tal criatura. Já estava até pensando em quando chegassem à margem da lagoa, no rancho do patrão. Iria pedir o celular de última geração para tirar uma foto e mostrar pra peãozada da fábrica. Mas nem imaginava ele o que o patrão estava tramando ao olhá-lo com inveja. O invejoso queria mesmo é que o peão desse o peixe para ele.

Foi quando, por uma fração de segundos, o peixe começou a se debater.

– Puxa o saco, Paulinho!

Foi quando, por um deslize daqueles enganatórios das enganações que costumam enganar até os mais enganados, Paulo se enganou. Ele simplesmente errou de...
– Saco!!!! Porra, larga meu saco, Paulinho!

Paulo, ao invés de puxar o saco com o ilustre peixe, se enganou e puxou o saco do patrão. Esse grave engano lhe marcaria para o resto da vida. Ao tentar pegar o saco com o peixe que já ia em fuga para a água, Paulo foi mordido pela traíra.

E a transmutação se deu! A partir de agora a traíra faria parte de do íntimo de Paulo Pereira Feijó.

– Caralho, lazarento, peixe filho de uma égua! – esbravejava Paulinho.

– Olha o respeito, homem! – repreendeu o patrão.

– Sim senhor! Tudo o que o senhor quiser.

– Como assim? Você está bem?

– Sim senhor, estou ótimo, pois estou pescando com o senhor e estou aqui para ajudar e servir o patrão no que quiser.

– Que papo de baitola. Mais me diz aqui, está disposto a me ajudar em tudo mesmo?

– Sim senhor! Estou aqui para colaborar com o senhor meu gestor no que precisar.

– Então faz o seguinte, começa me falando o nome dos peões da fábrica, que foram no sindicato semana passada para me denunciar.

– Essa é fácil! Foi J, B, R, T, Re, A.**


É leitores e leitoras... Paulo Pereira Feijó – ou DDI – ficou conhecido como o “Homem-Traíra”. O herói dos puxa-sacos, fiel amigo dos patrões e arquiinimigo dos trabalhadores. Fique esperto, ele aparece quando menos se espera para dar uma alcagüetada.


*Segundo o dicionário Aurélio, Traíra é “certo peixe carnívoro”
**Os nomes dos trabalhadores alcagüetados pelo Homem-Traíra foram abreviados pelas iniciais para evitar mais alcagüetagens. Vai que, de repente, uma história dessas possa ter acontecido, coincidentemente, onde você trabalha...


Gostaria de agradecer a meus amigos Feijão, Maria Juana e Ludwig Van Beethoven por ajudarem na inspiração.

Pedro Villa
Julho de 2008

2 comentários:

Guevara disse...

Fantástico, Pedro Villa! Alto nível. Até me lembrei de uns personagens parecidos... alguns até mesmo com nome parecido...rs...

Abraço!

bruna disse...

Pois é camarada... Os nomes são muito parecidos com os da região aqui!
Parabéns, fico aguardando o próximo!

Beijos!