quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Conversa de Rua: Juarez e o Mercado

Novidade no blog. A partir de hoje o cronista João Paulo da Silva passa a escrever periodicamente para nossa coluna "Conversa de Rua". João Paulo mantém um blog próprio, o Em Verso e Prosa, aonde tem publicadas 44 crônicas sobre os mais variados temas.

A primeira de muitas das crônicas do João feitas especialmente para o portal do PSTU chama-se Juarez e o Mercado e relata a "aventura" ou "desventura" de Juarez ao comprar um quilo de feijão. Junto com a crônica vai também o áudio da mesma, nas vozes de Giambatista Brito e Anna Karina.

Tanto o o áudio como o texto podem ser baixados diretamente de nossa conta no DivShare. Quem preferir pode acompanhar a narração diretamente do blog. É só clicar no play.


Juarez e o mercado
Por João Paulo da Silva
Tinha acabado o feijão na casa do Juarez.
- Amor, acabou feijão!
- Já?! Assim não dá, Rita! Esses meninos tão comendo demais!
- Ah! Deixa de reclamar, Juarez. Você sabe que as crianças estão em fase de crescimento. Agora vai no supermercado e compra logo o que eu tô pedindo. E não se esqueça: hoje a louça é sua.
Foi assim que o Juarez saiu para comprar feijão, resmungando bastante. Chegando ao supermercado, não demorou muito para encontrar o “bendito” produto. Lá estava ele no cantinho da prateleira. Parecia envergonhado. Ao se aproximar, o susto de Juarez foi inevitável. O principal ingrediente da mesa do brasileiro estava custando R$ 5,00! Ajeitou os óculos para conferir o preço na etiqueta. Mal pôde acreditar. Um quilo de feijão por cinco reais?! Que absurdo! Tinha ouvido falar de uma alta nos preços. Mas aquilo era loucura. Chegou ao caixa reclamando:
- Os preços estão bem altos, não?
- A culpa não é minha, senhor. – disse a moça do caixa.
Soltou um suspiro de resignação, pagou os cinco reais e foi embora.
Dois dias depois, teve de voltar. O quilo que comprou já tinha virado fumaça. E a Rita queria fazer uma feijoada no final de semana pros parentes. Feijoada era como a esposa chamava, mas os dois sabiam que, com o preço das coisas, era só um feijão mais carregado. Ainda tentou reclamar, mas a esposa foi mais rápida.
- Quem mandou comprar um quilo só? Agora vai ter de voltar lá.
No caminho, Juarez foi lembrando da conversa com a moça do caixa e foi ficando irritado. Entrou na seção de grãos e foi direto ao cantinho da prateleira. Quando apanhou o pacote de feijão, quase caiu para trás. O preço havia aumentado! Estava custando agora R$ 7,00. Dirigiu-se furioso ao caixa:
- Mas o que é que está acontecendo aqui?!
- Do que o senhor está falando? – perguntou a moça do caixa.
- Estou falando disto! – Juarez apontou para o preço do quilo do feijão.
- Eu não estou entendendo.
- Como não? Estive aqui há dois dias e este produto custava R$ 5,00!
- E daí? Qual é o problema?
- Minha senhora, não se faça de besta! Outro dia isto custava cinco reais. Como pode agora custar sete?!
- Simplesmente aumentou.
- Mas isso é um absurdo! Isso é impossível! Estou sendo assaltado em plena luz do dia! Moça, eu tô querendo feijão, não é lagosta! Onde é que nós estamos?!
- Estamos no Brasil, senhor!
- A senhora acha que eu tenho cara de idiota?!
- Absolutamente que não, senhor.
- Então como pode ser tão cínica ao dizer que o preço simplesmente aumentou?
- Mas a culpa não é minha, senhor.
- E de quem é a culpa?!
- Eu não sei.
- Claro que não sabe! Vocês nunca sabem de nada! Onde está o gerente?! Eu quero falar com o gerente!
- O senhor aguarde um momentinho que eu vou chamá-lo.
Não demorou muito e um careca de terno apareceu na frente do Juarez.
- O senhor é que é o gerente? – perguntou bastante inquieto.
- Sim, sou eu.
- Pois bem! Pode me explicar o que está acontecendo?
- Veja bem, o senhor tem que entender que a culpa não é nossa.
- E de quem é então?!
- É do mercado. O mercado anda muito irritado.
- E quem é esse tal de mercado? Chamem esse mercado aqui que eu mostrarei a ele quem é que está irritado!
Foi aí então que o Juarez avistou um homem perto das prateleiras com uma daquelas máquinas que servem para rotular os preços. Correu em sua direção e gritou para ele:
- Pare aí mesmo onde você está!
O homem assustou-se. Juarez agarrou-lhe pela gola da camisa e o sacudiu com força.
- É você, não é?! – disse ele com energia.
- Do que está falando, moço?
- Não se faça de idiota! É você que é o mercado, não é?! É você que vive sabotando os preços?!
- Ouça aqui, moço. – disse ele se desvencilhando do Juarez. – Eu não sei quem é o senhor e também não conheço esse tal de mercado. O meu nome é Severino e eu só estou fazendo o meu trabalho.
Nesse momento, o gerente se aproximou dos dois, puxou o Juarez para um canto e disse:
- Escute meu senhor. Nós não queremos ter problemas ainda maiores. Esta pequena confusão que foi armada está prejudicando as vendas. Vamos fazer um acordo. O senhor pode levar esse pacote de feijão de graça. Fica como cortesia da casa. E estamos acertados.
- De graça?
- Sim, de graça.
Ele estava desconfiado, mas aceitou. Antes de sair, virou-se para o gerente e disse:
- Mas pode dizer a esse tal de mercado que isso não vai ficar assim!

3 comentários:

serginho disse...

Muito bom! tanto a novidade quanto o conto!

agora só quem pode comer feijão todo dia é rico!

espero que os juarezes deste nosso país, realmente, não deixe as coisas ficarem assim!

Anônimo disse...

Perfeito!Adorei essa nova coluna.
Quanto ao conto,a minha opinião é que é assim que todo o povo deve agir,exatamente como o Juarez,e pegar pelo colarinho esse tal "MERCADO".

Anônimo disse...

me desculpem... muito forçado... as pessoas têm a mínima noção de que o "mercado" não é um cara, mas se a intenção não ser realista e sim beeem fictício com um tema real, tudo ebm, conseguiu...